E novamente o tempo esquenta pro meu lado!


Namorar escondido que ridículo, sair com mil desculpas esfarrapadas, virar evangélica... rss. Ia para a Igreja Batista com uma vizinha e a filha que também namorava escondido. Ficávamos em lugares estratégicos. Quando os fiéis fechavam os olhos para melhor ver Jesus escapávamos para a praça em frente. Ela namorava em um canto e eu no outro. Gente namoro mesmo! Coisa muito família. De vez em quando dávamos uma corridinha dentro da igreja para marcar presença! Não adianta prender filha! Ela sempre vai te tapear e olha que minha mãe não era fácil! Aí a imbecil aqui dá um passo em falso e engravida. O jeito foi me mandar de casa. Em agosto de 1958 nasce a minha primeira filha, mais um fracasso e eu volto pra casa! Grávida da segunda filha que nasceu em agosto de 1959! Em termos de escolher maridos eu não era muito esperta!

Em  agosto de 1958, acredito que dia 2 ou 3, aconteceu uma quase tragédia no Rio de Janeiro.
De repente uma  série de explosões fizeram estremecer todo o subúrbio. Em Deodoro, Zona Oeste do Rio de Janeiro o paiol de infantaria do Exército pegou fogo que se espalhou por vários outros. Ninguém sabia do que se tratava, apenas as explosões e projéteis sendo lançados ao ar. Parecia o fim do mundo e as pessoas começaram a correr desesperadas sem saber para onde ir. Durante dois dias tudo explodindo. Como a Serra de Gericinó corre  paralela aos bairros de Realengo, Padre Miguel, Bangu e Senador Camará a esplosões pareciam se multiplicar pois o som reverberava nas serras.
Eu enorme, minha filha nasceria a 10 de agosto, morando sozinha em um quarto alugado em Realengo, simplesmente saí andando sem destino como todas as outras pessoas. Era um mar de gente, e como a encrenca começou à noite as pessoas correram para a rua da maneira que estavam em casa. De camisola, pijama... enfim o caos! Ao amanhecer uma imensa nuvem de fumaça cobria todo a cidade. E como já mais ou menos sabiam um pouco o que tinha acontecido começaram a voltar exaustas para suas casas. Segundo soube depois, minha mãe saiu com a filharada, meu pai trabalhava de noite, e foram parar muito longe de casa. Conseguiram carona em um caminhão e voltaram mas muito assustados.  Eu não consegui andar muito - cerca de dois quilômetros - me sentei em um banco de praça e me entreguei a Deus! Este relacionamento também não durou muito. Acabou quando eu engravidei da segunda filha! Aí quem levou o chute fui eu! E volto humilhada mais uma vez para o ninho!

E a vida continua seu curso...


     Bem, como diria o bordão de uma novela, quanto ao tal casamento não vou contar os “detalhes sórdidos”. Estou tentando fazer algo agradável de ler e não um dramalhão mexicano. Apenas o tal tão desejado casamento durou de junho de 1955 até março de 1956! E lá vou eu pedir asilo político na casa do meu pai!
     Em 1956, eu, a espertinha, a valente, com 18 anos, era a “largada do marido”, a vergonha da família e o mau exemplo para as irmãs! Que tinham me avisado... e tudo aquilo que uma maluca que se atrevesse a dar um pontapé no traseiro do consorte escutava.
    Se pensam que aquilo me tornou alguém mais maleável esqueçam. Usava calças compridas, fumava... era o desespero da minha mãe. Quando as brigas ficavam mais frequentes, comprava um jornal, arranjava um emprego em casa de família e me mandava... rss.
      E assim a vida ia levando a vida. Surge a televisão. O nosso aparelho foi o primeiro do prédio. A vida afinal estava de bem com a gente.
       Ia ao cinema quase todos os dias. Vi tanto filme bom que hoje não assisto mais nada.  Suplício de Uma Saudade, saí chorando do cinema..., Sissi a Imperatriz, Cantando na Chuva, filmes de Charle Chaplin além de bons filmes brasileiros com Anselmo Duarte e Eliana, Glauce Rocha, Cyl Farney - Deus que homem lindo! Ria com Oscarito e Grande Otelo..., com Zezé Macedo. Quem viu tudo isto não precisa de mais nada! Lia compulsivamente! Lia muito. O que era “próprio” e o que não era! Lia da Bíblia ao Cortiço! Alguns tinha que ler escondida ou me mãe me dava umas boas bolachas... rss.
     Carnaval as famílias saiam passeando com as crianças para ver os grupos fantasiados de caveira, os bate-bolas, dominós, pierrôs, arlequim e colombinas, lança perfume cheiroso e gelado jogado nas costas das moças pelos rapazes mais afoitos e de maneira que os pais não vissem.  Eu ia levando minha vidinha até um tanto divertida. Poucas amigas. Imaginem se as mães deixariam suas doces filhas fazer amizade comigo! E vem a segunda coisa estúpida: Depois de dois anos arranjei, para desespero da família, um novo amor...rs
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A doce vida em Padre Miguel.

Padre Miguel já era um enorme conjunto residencial. As ruas maiores tinham três blocos de cada lado. Cada bloco com sete entradas e cada entrada com oito apartamentos. dois por andar pois os prédios tinham quatro andares. Em um pedaço da área, bem próximo à estação de Padre Miguel construiram três prédios novos. Com as ruas pequenas  apenas um bloco em cada rua. E foi em um destes que fomos morar. Meu Deus! Nunca tínhamos visto um apartamento de perto. Era enorme. Três quartos, uma sala, uma cozinha, um banheiro e uma área de serviço - cômodos todos grandes, janelas envidraçadas enormes. Enfim um “senhor” apartamento. Nas pontas das três ruas de um lado um colégio estadual e do outro uma praça com um cinema. Era o céu!  A frente dele era gramada. À noite colocávamos cobertores na grama nos sentávamos todos e ficávamos até tarde conversando e as crianças brincando e correndo. Ali moravam só operários, muitos da Fábrica de Tecidos Bangu. Dali à fábrica dava para ir de bicicleta. Transporte para o Centro do Rio os trens. A vida naquele tempo no Rio era realmente muito boa. Saíamos à vontade, passeávamos pelas ruas do conjunto, no final dos prédios um comércio pequeno mas supria as necessidades urgentes, principalmente alimentação. Leiteiro e padeiro entregando nas portas todas as manhãs. Enfim - um porto seguro!
Uns quatro meses após nos mudarmos para lá faço a primeira grande asneira: me caso!

Afinal um porto seguro!

Antes de entrar na história da nossa vida em Padre Miguel é preciso esclarecer como funcionava o que hoje é conhecido como "seguridade social". Cada categoria de trabalhadores tinha o seu instituto: IAPI - Instituto de Aposentadoria dos Industriários, IAPB - Instituto de Aposentadoria dos Bancários, IAPC - dos comerciários... Tudo funcionava a contento. Os  IAPs, por exemplo contruíam prédios muito bons que vendiam para seus filiados. A espera durava anos mas valia a pena esperar. A seleção era criteriosa e a prioridade era o número de filhos. Deve-se levar em conta também que após o empregado completar 10 anos no mesmo emprego adquiria estabilidade, só podendo ser demitido por justa causa. O empregado a cada ano de trabalho no mesmo lugar fazia jus a um percentual que se acumulava e sendo dispensado recebia imediatamente a indenização. Ainda os IAPs mantinham serviço médico de ótima qualidade. O Hospital do IAPI era na Praça Cruz Vermelha.  A digressão é necessária pois menos de dois meses residindo em Agostinho do  Porto e papai é convocado para receber um apartamento em Padre Miguel. Ele nem contava mais com isto pois havia feito a inscrição uns cinco anos antes.

Saída de Duque de Caxias.

    Meu pai começou a temer pela família. A cidade não era grande e nós morávamos praticamente no centro. Os assassinatos políticos eram frequentes e ele resolveu se mudar. Arranjou uma casa em Gramacho - uma gracinha de casa. Branquinha e com uma varandinha na frente. E nos mudamos. Talvez setembro de 1954. Ficamos uns 3 meses e não sei porque ele resolveu mudar de novo. Fomos para Agostinho do Porto, uma casa enorme, em um lugar um tanto deserto. Acredito que tantas mudanças era para por um fim ao tal noivado que caminhava a trancos e barrancos. Desta casa me lembro de uma noite em que começamos a ouvir um barulho estranho, estávamos com muito medo mas mamãe não se intimidou: pegou uma foice e saiu devagarzinho pela porta da cozinha deu volta à casa e nada encontrou. Continuamos a prestar atenção e quando passou o próximo trem - a estação era perto - entendemos que o barulho era causado pela trepidação gerada pela passagem dele. Voltamos a dormir sossegadas.
     Também me lembro de ter ganho de presente do noivo uma vitrola de mesa e vários discos que eu ouvia sem cessar...O amor é lindo!

O assasinato de Albino Imparato.

     O Delegado, paulista,  foi mandado para Duque de Caxias por ordem do próprio presidente Getúlio segundo comentários, e com a incumbência de cortar as asas de Tenório Cavalcante que já estavam grandes demais.
Mandou metralhar a casa de  Tenório, matou vários de seus capangas enfim ... foram dias de terror mesmo.
     Em  28 de agosto de 1953, Imparato foi  metralhado  dentro de próprio carro carro, em frente à sua casa,  no centro da cidade.O crime repercutiu  em todo o país. Ficou comprovado que a ordem partiu diretamente de Tenorio. Mas aliados de peso como Nereu Ramos, presidente da Câmara dos Deputados, Osvaldo Aranha e o deputado Afonso Arinos livraram-no da polícia.
     Dá para ver que o que acontece em nossos dias não chega a ser novidade.
    Em 1954 Tenório fundou o jornal Luta Democrática, do qual se servia para atacar desafetos e adversários, entre eles Getúlio Vargas. O jornal chegou a ser o terceiro maior do Rio de Janeiro nos anos 60. Trazia manchetes horríveis e dele
diziam que se fosse torcido sairia sangue.


Faroeste brasileiro.

      O “clima” em Duque de Caxias na década de 1950 não era o que se poderia dizer saudável...Muita violência. Imperava na cidade Tenório Cavalcante. Rei da Baixada para os admiradores, deputado pistoleiro para os adversários. Nascido em Alagoas, Palmeira dos Índios,  protegia e ajudava os pobres, a maioria nordestina, e com isto angariava aliados fiéis dispostos a morrer por ele. Residia com a família em uma verdadeira fortaleza no centro da cidade. Tinha aliados poderosos e  inimigos ídem. Conhecido como “o homem da capa preta” sua história foi contada no filme do mesmo nome com José Wilker no papel principal.
Andava sempre com uma submetralhadora alemã - a inseparável “Lurdinha”, escondida sob a famosa capa preta que lhe rendeu o apelido. Arma que recebeu de presente do General Gois Monteiro um dos seus amigos.

Desafiar Tenório era encomendar a sepultura. Volto a encontrá-lo em 1972, quando  trabalhava na 4ª Vara Criminal de Duque de Caxias em um de seus julgamentos - Talvez a única vez que o vi ao vivo e a cores - O do assassinato do delegado Albino Imparato ocorrido em 28 de agosto de 1953! Conto no próximo post. Encontrei a foto abaixo do Arquivo Nacional - acervo "Correio da manhã.

Pompa e circunstância!

Parte 1. A missa dos domingos, às 8 horas era a missa do Colégio Santo Antônio. De comparecimento obrigatório e as faltas tinham que ser justificadas. Saíamos do pátio do colégio –em uniforme de gala – saia azul marinho, blusa branca de mangas compridas e boina azul. Véu e  missal obrigatórios. O missal lindo. Livrinho de orações e cânticos com capa de madrepérola branca. Assim formadas saiam, as meninas duas a duas, as menores à frente, descíamos a Rua Bitencourt, atravessávamos a Nilo Peçanha, caminhávamos por ela cerca de 100 metros até atingir a rua onde ficava a igreja , quase na esquina. Entrávamos no mais absoluto silêncio, já com o véu branco cobrindo a cabeça e ocupávamos nossos lugares e enfim a missa. O uso do véu era obrigatório dentro da igreja. Moças véu branco e senhoras casadas com ele preto.  Missa bonita, em latim,  acompanhada por hinos cantados por nós ao som do órgão tocado magistralmente por Madre Hildegard.

       As festas religiosas era de comparecimento obrigatório. Mês de Maria, Festa de Santo Antônio, precedida de novena – esta a mais bonita das festas pois o santo é o padroeiro da cidade. Corpus Cristi também lindíssima com suas ruas enfeitadas. Creio que perdi a graça, me tornando agnóstica  pois a Igreja da minha infância com sua pompa acabou. Hoje é muito sem graça, sem beleza, sem emoção. No próximo post a vida política – e policial – da cidade.

A vida em Duque de Caxias nos anos 50

O  Faroeste brasileiro. (1)

     Duque de Caxias, município no antigo Estado do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, naquela época era terra de ninguem. Sempre foi violenta.  Constituída de bairros populares e favelas que absorviam os migrantes que se destinavam à cidade do Rio de Janeiro. Naquela época já era uma cidade dormitório.
    A cidade contava com bom e diversificado comércio, dois bons colégios – o Ginásio Santo Antônio onde se formavam as “normalistas” que saiam aptas a lecionar e o Colégio São José. Ambos ainda em atividade. Um cinema e uma igreja matriz enorme.
Sobre o Santo Antônio falo no post a seguir.


O fato mais marcante dos anos 50


     O presidente era Getulio Vargas pela segunda vez, na primeira foi deposto em 1945, em 1950 concorreu e foi eleito pelo voto dos trabalhadores tomando posse em 1951. Foi um período conturbado pois ele tinha contra si inimigos poderosos dos quais o pior era Carlos Lacerda. Em agosto de 1954 Lacerda sofreu um atentado promovido por Gregório Fortunato chefe da guarda pessoal de Getulio.O chamado atentado da Rua Toneleros. Neste atentado morreu um major da Aeronáutica - Rubens Vaz.  Cresce a pressão, com a Aeronáutica criando a sua "comissão da verdade". Apurado o envolvimento de pessoas muito próxima ao presidente passaram a exigir a sua renúncia. Na passagem do dia 23 para 24 de agosto Getúlio reuniu seus ministros para avaliar o cenário. Se vendo sem apoio e na iminência de ser preso subiu para o seu quarto que ficava no terceiro andar do Palácio do Catete e se suicidou. Entre o atentado da Rua Toneleros e a morte de Getúlio transcorreram apenas 19 dias - um dos períodos mais tensos do país.
     Afinal Getúlio vencia! Preferiu a morte à prisão e à desonra, retirando a escada e deixando seus inimigos pendurados no teto. Diga-se o que quiser de Getulio, façam as críticas que quiserem mas não podem tirar dele o mérito de ter construído Volta Redonda e lançado as linhas do que hoje é a Petrobrás. Também não lhe tirem a coragem que os homens públicos do país hoje desconhecem. A reação à humilhação e desmoralização para o homem de honra é a morte!

Afinal como ele mesmo escreveu na sua famosa carta testamento saiu da vida e entrou na História! Mas entrou na História de cabeça erguida!



Uma pausa agora nas recordações pessoais para expor alguns fatos históricos da década de 1950.

Meu pai era "getulista" ferrenho. Adorava Getulio Vargas. Buscava informações onde quer que elas estivessem o que também faço. O que não conseguimos aprender no ensino formal procuramos aprender de outra forma. E ele começou a se interessar por política, frequentar o sindicato, participar de maneira ostensiva de greves... teve muita sorte! Conseguiu não ser mandado embora, pois além de muito trabalhador cuidava, durante a noite, de um forno que ele descrevia para nós: imensas bobinas de arame muito fino de um lado e de outro. Elas desenrolavam de um lado passavam por um compartimento incandescente onde tomavam um banho de cobre e  iam se enrolar na bobina do lado oposto. O processo era ou é, não sei, conhecido como trefilagem. O cuidado era intervir com a maior rapidez se um daqueles arames se rompesse, pois ele iria chicotear atingindo as outras bobinas embaraçando tudo. E isto não podia acontecer pois o forno não podia ser apagado. Levaria meses até atingir a temperatura ideal de novo. A atenção e tensão eram imensas. Com isto ele garantia o seu emprego...



 

Anos 50 (1950)

 

     A vida começa a melhorar lentamente. Aos 15 anos calçava sapatos Luiz XV, minha mãe me dava roupas muito bonitas. Aprendera a costurar e eu também. Copiava modelos das revistas e ficava tudo lindo. Vestidos seda estampada, de fustão rosa de bolas brancas com bolero de piquê branco... Chiquérrimos!  Vestidos godê duplo... 5 a 6 metros de tecido para fazer um vestido! Não eram estas tirinhas que hoje chamam de roupa. Meus cabelos muito compridos e bem cuidados. Enfim a patinha feia até que se transformou numa senhorita apresentável!

     Família já completa para o gosto da minha mãe: mamãe e papai e a ninhada de cinco: Eu, Neusa, Simeão, Elza e Penha. Estava de bom tamanho. Já possuíamos alguns móveis e relativo conforto. Os pais dividiam as responsabilidades: papai punha comida em casa e comprava móveis. Mamãe vestia os filhos e comprava roupas de cama e banho. Aliás comprar não é bem o termo. Comprava metros e metros de cretone e os transformava em roupa de cama e mesa. Eu bordava e nos tempos livres enfeitava algumas peças para usar nos domingos e dias de festa.

     O rádio estava no seu apogeu. Época de ouro: Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Orlando Silva, Silvio Caldas, Jorge Goulart e começam a surgir grandes cantoras: as Irmãs Batista, Nora Ney, Dalva de Oliveira e a explosão de Abelim Maria da Cunha - Ângela Maria.  Em  setembro de 1952 morre em acidente automobilistico Francisco Alves “o Rei da Voz”.

Surgem os primeiros rádios vitrolas. Enormes. Móveis muito bonitos com o rádio e a vitrola ocupando a parte superior e a inferior às vezes era fechada e servia para  guardar os enormes discos de vinil.



Mas sempre aturando as “crioncinhas”. A diferença de idade era de dois anos. Então a mais velha dava banho e penteava os cabelos dos maiores e cuidava das traquinagens dos menores. Faziam coisas terríveis tipo subir em lata para jogar pedra no zinco e cair e quebrar a perna! Arte da Elza. Se debruçar no berço cair e bater com a cabeça no cimento e quase morrer. Arte da Penha. Ir para a rua e jogar pedra dentro do quarto do vizinho. Arte do Simeão! Realmente quatro irmãos é castigo!

Lembro das compras que eu fazia carregando bolsas pesadas, da água que eu pegava todos os dias mas já tinha algumas compensações. Aprendi cortar e costurar, aprendi a bordar e passeava pelo centro com as crianças aos domingos

Agora que a família estava melhor de vida apareciam parentes para visitar! Visita assim de meses! Ia a família toda e se hospedava lá em casa. Engraçado! Quando estávamos na miséria ninguém nos amava!

E continuava de maré alta. Depois de várias olhadas para os vizinhos, todos muito mais velhos do que eu que não deram confiança para a garota - nunca suportei crianças... acho que era trauma. Se além de aturar irmãos eu arranjasse um namoradinho da minha idade talvez a mãe dele quisesse me empurrar a peste para acabar de criar - arranjei um namorado. Eu com 16 ele com 25. Foi um inferno na família! Tinha que namorar escondido e subornar os irmãos... mas  como a criatura morava na casa ao lado dava pra enrolar. Nunca fui tão católica na minha vida... ia para novena, missa, onde desse para eu ir sozinha e fugir pra namorar eu ia.

     Mas a D.Jacira de boba não tinha nada e logo descobriu... Foi um drama mexicano. Primeiro pensaram que era passageiro e se deixassem eu enjoaria, depois quando viram que a coisa era séria resolveram engrossar pra valer. E eu, tudo o que sonhava era me casar e vazar... livre de mãe chata e irmãos horrorosos.
Quando ela proibia eu respondia que ela não queria que eu me casasse para não perder a empregada! Que só colocou aquele monte de filhos no mundo por que eu é que tomava conta. Aí levava cada surra! Mas nem ligava! Usando um termo dela "eu vergava mas não quebrava"...

     Minha adorável família parecia não conhecer a filha que tinha,  partiu para as ameaças: me internar em um colégio... respondi que fugiria e aí seria pior! Consegui ficar noiva muito a contragosto, pensavam contar com o tempo a favor deles – eu contava com o tempo a meu favor... e fui levando o tal noivado entre crises, brigas, lágrimas – ô dramalhão! Minha família errou como o marido e muitas pessoas erraram na minha vida: tentar me proibir de alguma coisa! Ninguém me proíbe de nada! Sou minha dona! Sou minha proprietária! Faço o que entendo! Quebro a cara?  Muitas vezes mas nunca porei a culpa nos outros. Ninguém é responsável pelas minhas escolhas. A minha vida sempre foi decidida por mim!

     Em 1951 mas um passeio a Minas. Minha mãe, grávida, adorava ter filhos mineiros!
     Desta vez fomos para a Caiana.
    Minha avó morava em uma casa enorme. Branca, alta, janelas tipo guilhotina muito comuns em casas de fazenda. Das janelas da sala se avistava uma estrada de terra vermelha onde passavam muitos carros de boi. Quem nunca ouviu um carro de boi cantar não sabe o que é viver. Muitos quartos. Era uma casa confortável. Em frente um terreiro enorme onde secavam o café. Casa de engenho onde moiam a cana e faziam rapadura e melado. Que delícia era o melado. Moravam com ela ainda uns cinco filhos solteiros de um total de doze. Conheci todos. Gente trabalhadora. Saiam para as plantações quando o sol mal acabava de nascer e só voltavam à tardinha. Tomavam a primeira refeição - leite, café, inhame ou aipim, broa de fubá - refeição farta. os homens iam antes e as mulheres ficavam em casa para preparar o almoço. E não tinha idade. Meus primos e tios com 12/14 anos já encaravam uma enxada e ninguém morreu por isto! Ás 10 horas almoço pronto era colocado em taboleiros que minhas tias levavam na cabeça. Pratos de ágata, Copos? Quem precisava de copos com inhame e taioba nativos? Era só pegar uma folha novinha enrolar e ir para algum lugar onde minasse água e encher. Água geladinha e limpa. A água brotava em abundância. Em volta das minas nasciam bananeiras, taioba e inhame. Pobres sim mas comida farta e saudável. Minha avó adorava plantar. Couve, cebolinha, serralha, mostarda, quiabo, chuchu...e uns pezinhos de cravo, umas roseirinhas ... quintal cheio de galinhas. Porcos engordando. E iam levando a vida. 
Mas não posso me esquecer da novela! Em uma casa, não me lembro de quem, tinha energia elétrica, uma brasinha como lâmpada, mas tinha um rádio galena e todas as noites minha mãe ia visitá-los pois não podia perder sua novelinha... rss
Agora eu já não corria com priminhos - era uma senhorita com 13 anos! Já olhava para os meninos com outros interesses...rss. Coisas que fiz e gostei: cortei arroz na várzea encharcada de um rio que serpenteava perto. Cortei taboa. Comi puxa de melado e andei muito com minha mãe e tias pelas noites enluaradas e frias quando voltávamos das novenas e ladainhas nas casas próximas. Coisas que não gostei: Ouvir os gritos dos porcos quando eram mortos ou quando minha avó saiu com uma ninhada de gatinhos no avental para afogá-los. Mas eram pessoas simples e assim levavam a vida. Animal ou se matava para comer ou se matava para ele não atrapalhar!...
E voltamos para casa....


 

Mamãe Costureira - Filha Escrava

     Naqueles tempos as lojas em sua maioria de propriedade dos chamados turcos, não sei se eram da Turquia, compravam tecido, tinham alfaiate que cortava as calças, entregavam nas mãos das costureiras para serem costuradas em casa . Costuravam, faziam todo o acabamento passavam e entregavam na loja prontinha para serem comercializadas.
Minha mãe vai em uma delas e simplesmente diz que é calceira.. E chega em casa com 20 calças para costurar. Sem saber nada de nada. Ela enlouquecia meu pai. E foi aprender a enfiar a linha na máquina. Nem isto sabia. Pegou umas roupas velhas - treina dalí e daquí - quebra umas tantas agulhas, mas já podia aprender a costurar as tais calças. Da terceira em diante já melhorava também a lojinha do turco não era lá estas coisas.
Ela vai, segundo depois contou, com as pernas bambas entregar as costuras. O turco fez algumas críticas, mas também não conhecia nada e as calças estavam impecáveis de bem passadas. Ele lhe deu a segunda remessa.
Nunca mais parou. Foi uma das melhores costureiras de calças do Colégio Militar no Rio de Jnaeiro, nos seus últimos anos trabalhando para A Colegial.
     A filhinha aqui a esta altura já estudava. Perto da minha casa um colégio - bom, muito bom. Está lá até hoje. Menos de 300 metros de distância da casa. Colégio de Freiras Franciscanas.
Meu pai era sem noção, mas adorava a pestinha. E vai me matricular no Ginásio Santo Antônio - o colégio da elite caxiense. Agora já podia me dar uniforme, calçados...Elas eram exigentes. Não condescendiam. O uniforme tinha que estar correto, as pregas das saias com 2 cm. Chegava do colégio arrumava a saia, alfinetava as pregas e colocava em baixo do colchão...rss. No outro dia elas estavam impecáveis! O sapato "colegial tanque" preto, pesado. Cadernos e livros perfeitamente encapados. Cabelos presos. E muito rigor. Sempre fui a aluna nota 9/10... menos em matemática que nunca suportei. E em comportamento era uma tragédia. Se conseguisse nota 10 em tudo ganhava uma fita com uma medalha. Teve um mês que consegui não sei por que milagre. Ao me “enfitar" a madre fez o comentário infeliz que estragou tudo: até que enfim você conseguiu a medalha. Respondi na hora - não preciso!... Perdi a medalha... esta era eu! E aquele rigor me irritava. Nunca fui organizadinha, patricinha, coisas muito certinhas nos seus lugares me deixam com um tremendo mau humor! Gente muito organizada não tem muita capacidade. A sua organização é para desviar a atenção. As gavetas impecáveis e a cabeça vazia!

     Minha vida em casa - que inferno. Pior do que irmãozinhos só priminhos. Às vezes a vida conseguia me dar as duas coisas ao mesmo tempo...
     Minha mãe costurava o dia inteiro. A filhinha aqui com 11 anos era babá dos monstrinhos, cozinheira, fazia compras na rua, carregava água para encher todo santo dia um galão de 200 litros de água. Ajudava a chulear e pregar botões nas calças. Só não lavava - minha mãe detestava roupa mal lavada. Lavava a louça, arrumava a casa e apanhava bem. Era a própria Escrava Isaura - como odiava aqueles irmãozinhos. Se não tivesse aprendido na Igreja que matar irmão é pecado mortal, não tinha sobrado nenhum.
     Fiquei mais religiosa do que precisava - a maneira de escapar era ir para a Igreja. Novenas - a missa era obrigatória - aprender a bordar, curso de corte e costura, qualquer coisa que me tirasse de casa, eu usava.
     Me deixavam sair para passear, mais tinha que carregar as pestinhas.
    Passou o ano de 49 e 50. Fiz a 4a. série. A 5a. já era a "Admissão". Eu consegui fazer as duas ao mesmo tempo. E fui para o 1º ano ginasial. Não gostei. As matérias eram horrorosas - latim... francês, uma tal de álgebra, eu que sempre detestei matemática, de repente ter que misturar números com letras... que horror.
A única coisa boa era um colégio só de garotos, o nosso era só de meninas, que vinham para desespero das irmãs ficar na porta do colégio para ver as meninas passar. Mas a minha mãe não dava folga. A campainha do colégio tocava, se em cinco minutos eu não estivesse em casa, ela vinha me buscar e me levava arrastada pelas tranças em baixo de tabefes. Para não passar vergonha ia embora rápido.
Me enchi - resolvi abandonar o colégio. Agora já estava em idade de entender, que aquele colégio não era para mim. Engraçado, sempre tive consciência sem revolta, do meu lugar na sociedade. Sabia que eu, filha de um operário e de uma costureira, não podia frequentar aquele colégio. As freiras gostavam de mim, embora eu fosse uma pestinha. Mas sem falsa modéstia era inteligente e isto carreava para mim a benevolência delas e a maledicência das meninas. Quando passei para o ginasial, fiquei muito só. Nunca fiz amigas. Talvez por isto me sinta tão bem comigo mesma. Comecei a rasgar cadernos, rabiscar livros, aprontar no colégio até que meu pai desistiu. As irmãs ainda ofereceram uma bolsa de estudos, mais realmente não dava mais...

Em 1950 já tínhamos um rádio. Começava a novela, na Rádio Nacional, que marcou toda uma geração: O DIREITO DE NASCER. Às 20.00 horas o Brasil parava para chorar com o drama de Maria Helena Juncal e Albertinho Limonta.


Tempos de mudança

 

     Meu pai se cansou de tanto sofrimento. Ele se sacrificaria, mas nós não. E começamos a planejar a mudança. E ele a procurar uma casa.  Os amigos ajudaram e ele encontrou uma casa em Duque de Caxias. Rua Bitencourt – 228 - Hoje é no Centro. Casa de fundos, cor de rosa, com um banheiro já mais decente. Sala, um quarto, cozinha do lado de fora. Mas já de alvenaria, com as portas e as janelas onde devem estar todas as portas e janelas. Tinha até um cantinho coberto de zinco com um tanque. Até hoje adoro o barulho da chuva batendo no zinco. Era a glória. Tinha um quintal, com pés de amora e dois de biribá – conhecido como fruta-de conde. A cerquinha que separava as duas casas, era de arame com uma planta que dava muitas flores rosinhas – nunca mais vi. Do outro lado  nós plantamos bertalhas.

     Pegamos as nossas poucas coisas jogamos em um caminhão velho e lá fomos.  Imaginem a minha vergonha – tive que ir calçada de tamanquinhos e minha mãe de chinelo – não tínhamos sapatos.  Não era muito, mais afinal era um ponto de partida para dias melhores.

Já tínhamos luz eletrica. Só não tinha água – era de poço e como a casa ficava na parte de baixo da rua não se conseguia fazer um poço – ele “esbarrancava”. Mas a vizinhança era muito prestativa e todos nos davam água que era meio salgada, mas para quem levava a vida que vínhamos levando até então isto não importava.
Rapidinho minha mãe arranjou umas lavagens de roupa.
Para meu pai piorou – ele agora precisava levantar de madrugada para estar na GE às 7 horas.
Mas imaginem como ele resolveu o seu problema? Conseguiu trabalhar no turno da noite. Saia de casa por volta das 5 da tarde regressando às 9 da manhã. Aí compramos o primeiro rádio. Dele falo depois.


     E lentamente a vida começou a melhorar. Meu pai ganhava o dobro, minha mãe lavava suas roupas... e ela engravida novamente.
    Em 1949 nasce a Elza. Meu pai foi o parteiro. Não deu tempo de chamar ninguém. Naquela época as crianças nasciam em casa. (e não morriam de infecção hospitalar).
    Minha mãe era boa de briga com a vida. Morava perto da nossa casa, uma senhora que costurava calças masculinas. Naquela época eram chamadas de calceiras. Minha mãe perguntou se esta senhora - D.Celina se incomodava de ensinar a ela. Quando a Sra. disse que ensinaria ela não hesitou, juntou uns trocadinhos, foi numa lojinha de um turco e fez sua primeira compra - UMA MÁQUINA DE COSTURA. Marca Husqwarna, a Singer era muito cara. Deu a entrada e mandou levar a máquina.
Meu pai quase infartou - mas ela firme - Eu vou pagar.

 Meus tempos de favela

      E finalmente, mais ou menos pelo mês setembro, voltamos, acho que o mês era este por que meu irmão nasceu em junho e lá as mulheres guardavam ciosamente os 40 dias de “resguardo”, mamãe não sairia com um neném muito novinho e as duas pestes- eu e Neusa, com 9 e 2 anos.Voltamos para casa.


Esta frase vai ser recorrente:
Nada está tão ruim que não possa piorar!
      O nosso primeiro barraco, não chamo aquilo de casa, era feio mas pelo menos era grande, meu pai, muito prático. acreditando que a família não ia voltar – calma, ele não fez igual ao pai do Lula –  apenas arranjou um quarto menor para morar. Era muito mais perto da GE.
Um quarto de uns 5 metros quadrado, coberto de zinco, paredes de madeira, com um puxadinho do lado de fora, onde havia um arremedo de banheiro e um canto para por o fogareiro. A louça era lavada em bacias ...cama de vara, colchão (fino) de crina algumas vasilhas e mais nada! Barracão de zinco só em bonito em música da MPB... Imagine mamãe, eu, Neusa, um bebê novinho e papai todos amontoados ali dentro! Sem água corrente, sem qualquer possibilidade de manter a mínima higiene!
     Para nós não era difícil assistência médica – a GE mantinha ambulatórios com médicos e atendia aos seus empregados e dependentes. Além de fornecer um litro de leite por dia para as famílias. Quanta diferença de hoje!
     Não ficamos muito por ali,  pois meu pai arranjou uma casa muito grande, na parte baixa da favela. Ficava já no lado oposto. Exatamente na direção do mar – e do mangue.
Colégio – nem pensar. Brincar nada... e hoje todos reclamam de tudo!   Meu pai deveria saber que muita esmola o santo desconfia. Fomos levando a nossa vidinha. A casa era alta. Agora já sei o termo exato – Palafita.
      Um belo dia veio a primeira enchente. Olhávamos apreensivas a água subindo. A chuva forte com a lua cheia a maré sobe mais que o normal. Ao chegar quase à porta, acima de uns 5 degraus de escada, ela refluiu. E voltamos á calma. O tempo passando, sempre uma enchente ou outra, mas dava para levar. Um belo dia o caldo engrossou – a água não parou de subir. Não respeitou o roteiro previamente estabelecido. Não parava de subir. Meu pai não arriscou mais. Eu subi no seu ombro, segurou a Neusa no braço, mamãe com o neném. E saímos debaixo de chuva. A água batia acima da cintura deles. Assim saímos daquele inferno e fomos abrigados por antigos conhecidos. A água, segundo meu pai subiu mais de um metro dentro de casa, e perdemos quase tudo do que já não era quase nada! Creio que ficamos ali só por uns três meses.

Tive crup... escapei. Minha mãe sempre falou que de tão ruim que eu era, nem ele pode comigo.

O lazer mineiro.

      Antes de voltar para a dura vida do Rio de Janeiro, uns restinhos de lembranças gostosas como doce de goiaba...
     As crianças, a partir dos 6 anos já tinham as suas economias, com o que compravam suas roupinhas. Brinquedos? Faziam de sabugo de milho.
   O café era colhido com as mãos, vem com as mãos de cima até o a ponta do galho "derriçando" e os grãos caem no chão. Aí é juntado com a vassoura, hoje já estendem um plástico grande, e colocado em balaios para serem levados até a fazenda... Não modernizou muito pois ele é cultivado em grande parte nas encostas das serras o que inviabiliza a mecanização. Lavoura de café é na enxada mesmo.
     Muitos grãos se perdem na terra, vão para baixo dos outros pés de café. Os proprietários após toda a colheita escoada, liberavam para a molecadinha "catar café". E começava a festa. Cada criança com uma latinha recolhia os grãos - um a um - enchendo a latinha e colocando  no "bornal", uma bolsa de lona ou brim, que eles carregavam à tiracolo. Acreditem, eles arranjavam uma boa grana com a venda das sobras, e que era absolutamente respeitada pelos pais. Eles compravam roupinhas, sapatinhos, que usavam o ano todo para ir "à reza", conforme se fala por lá.
      Que era a "Reza".
      Antes da invasão dos evangélicos, o mineiro era profundamente católico, guardava os dias santos com devoção. As santas mais cultuadas naquela área, são Santa Bárbara,(4 de dezembro), protetora contra raios e Santa Luzia, protetora dos olhos (13 de dezembro) .
O nome da cidade maior lá, na verdade é Santa Luzia do Carangola.
As famílias se reuniam em uma das casas para rezar terços, cantar hinos - tudo muito bonito.
Mes de maio - lindo - mês de Maria. Rezas, ladainhas, cantos, culminando com o a coroação da Virgem, no último domingo. Quaresma - todos os santos cobertos com tecido roxo.
Não se comia carne. Sexta feira Santa, nenhuma atividade física. Nem o simples passar o pente nos cabelos. Não pegar em vassouras. No sábado a malhação dos Judas. E faziam muita festa. Arroz doce, cangica, curau, muita "quitanda". É a época do milho verde.
Festa de Reis - com a folia de casa em casa, e estava assegurada a proteção de Deus, Jesus Cristo, Maria Santíssima e os Santos para o ano todo.


As Minas Gerais na visão de uma criança

Minas dá um livro inteiro.

     Neste ano, minha avó casou uma de suas filhas - a Tia Edite. Coisa linda casamento na roça.  Era necessário fazer dois vestidos – um, eles chamavam de “vestido de caminho”. As fazendas eram distantes da “rua”. Era como denominavam a vila mais próxima. Eles não falavam “vou à cidade”, falavam “vou na rua”.
     Ali ficavam os estabelecimentos comerciais que vendiam de tudo – fumo de rolo, com que o mineirinho fazia o seu cigarrinho de palha e ficava “pitando” de tarde... vendiam as ferramentas, as chitas, as linhas, o “pó de arroz” e as fitas que enfeitavam as moças. E lógico – ficava a Igrejinha. Na minha última viagem à Minas (2001), passei na frente da Igreja da cidade de Divino de Carangola. Agora uma linda Igreja.

Comida quase não se comprava – apenas macarrão, sal e querozene. O resto a terra dava. O café era adoçado com rapadura – feita na fazenda. O queijo também – minhas primas, ainda hoje fazem um queijo divino. E também a cachaça.

Vamos ao casamento.

O casamento ainda hoje – foi em 1947 – me lembro.

     Imaginem no meio do terreiro, cavaletes com taboas, forradas de lençóis, pois era tudo muito grande. E bancos dos lados. Ali era o cenário da festa. E que festa. Todos os parentes vinham de muito longe, então era necessário acomodá-los.

    O “vestido de caminho” da minha tia era de moirée, um tipo de tafetá. Parece-me vê-lo estendido em cima da cama. Era azul marinho, godê, com uma guarnição de fitinhas de veludo vermelhas, colocadas à cerca de 20 cm da barra... eram 3 paralelas. Se repetiam na manga. Por que precisava deste vestido? A noiva e os convidados iam à cavalo, charrete e carros de boi pelas estradas empoeiradas. A viagem durava cerca de hora e meia. Então as roupas e calçados dos noivos iam abrigados da poeira dentro das malas. Na “rua”, todas as pessoas se conheciam, e tinham o maior prazer em que a troca das roupas fosse feita em suas casas. E dali iam à pé para a Igreja.
    Após o casamento nova troca de roupa e todos voltavam para o almoço que estava à espera.
     Muito me divertem hoje a lembrança das festas. Minha avó era pobre e viúva. Mas para o casamento da filha, matou porcos, dezenas de frangos, arroz, feijão, macarrão,  muito doce com queijo e bebida – licores de todas as cores e sabores.

      Minhas tias um mês antes, já estavam fazendo os doces. E não tinha frescura. Eles eram guardado em latas de 20 kg e nelas mesmas iam à “mesa”... doce de laranja da terra, mamão (sequinho e em compota), arroz doce, doce de leite de vários tipos, e muita “quitanda”. O termo “quitanda” era empregado para nomear às coisas feitas no forno de lenha que ficava no quintal. Elas não falavam “vou fazer biscoitos” – eram genéricas “vou fazer as quitandas": brevidades, sequilhos,  biscoitos de polvilho e de nata, e muita broa de milho. Trigo não havia.   Para as carnes tinham uma solução engenhosa – matavam o porco, não tinham luz nem conheciam geladeira. Fritavam as carnes e as lingüiças, do toucinho faziam os torresmos. Colocavam as carnes bem fritas, (só não podia deixar caldo), também em latas de 20 kg, cobriam tudo com a banha e usavam à medida que precisassem. Não estragava e quanto mais velha mais gostosa. Do sangue faziam o chouriço. Este elas punha para defumar. Por isto não usavam a carne de boi – além da pecuária lá ser mais voltada para laticínios – ela não se presta a isto. Apodrece.

Finda a festa de casamento a vida volta ao normal. Apenas uma novidade – minha mamãe coelha recebe o seu coelhinho – agora um garoto.


Em tempos de Minas.

     E finalmente fomos para o Divino de Carangola nas Minas Gerais, onde morava minha avó, ficando alí por uns 6 meses.

     Antes de entrar na aventura mineira uma explicação: Carangola era o final da viagem de trem. A viagem prosseguia de ônibus (imaginem ônibus, no interior, em 1947! Piscadela)  indo na direção do  Divino ou subindo  para Caiana e  Espera Feliz.

     Estas cidades, ainda muito pequenas, ficam na encosta da Serra do Caparaó, com seu ponto mais alto no Pico da Bandeira, 
por muitos anos considerado  o ponto culminante do País.


As terras de Minas

     Isto dá assunto. E eu gosto.
     Minha mãe arranjou uma casinha para morarmos - sempre independente!
    Como fazia para nos sustentar não sei, também não precisávamos muito. A alimentação garantida e farta, primos e lugares para correr... criança não precisa de mais nada. 
Minha mãe arranjou uma escolinha para mim, onde todas as crianças estudavam numa única sala... eu sabia mais que a professora - não podia dar certo!

Arranjos domésticos
     Os colchões de capim seco, ou de palha de milho... fácil, ficava ruim jogava fora, lavava a capa e enchia. Camas de vara. Móveis? Arcas enormes e bancos compridos. Um espelho quadrado pendurado na janela. Ninguém precisava de mais do que isto. Casas com muitos cômodos, altas, em baixo dormiam as galinhas – haja pulgas. A roupa da casa toda feita de sacos ou morim... um tipo de tecido branco. O vestuário de chita e brim... sapatos só se calçava aos domingos...
as comprar eram feitas uma vez por ano com recursos da venda do café. Então era necessário providenciar tudo, não se esquecendo da lata de "pó-de arroz", muito cheiroso que minhas tias usavam no rosto. Quando conseguiam um cor de rosa, ficavam numa alegria que só vendo.

      Vassoura de mato... uma para dentro de casa, outra para o terreiro. Aos sábados, minhas tias iam cortar vassoura e pegar “barro branco”, hoje sei que é o caulim. Pegavam os galhos de uma erva conhecida pelo nome de vassoura mesmo. Amarravam firme, muitos galhos em vollta do cabo, e ela estava pronta e cheirosa
O barro branco depois digo para que servia.

     Na cozinha, o fogão era o rei. No centro dela - enorme. Por dentro passavam serpentinas que forneciam água quente. O clima lá é muito frio o ano todo. As panelas, de ferro que minhas tias levavam para as minas, aos sábados e areavam até que parecessem espelhos. Enxugavam e orgulhosas as colocavam nas prateleiras, cada uma com o seu “pano de prateleira"... marcadinhos, com bróia nas barrinhas, que elas ainda achavam tempo para fazer - e à luz de querozene!  Sabão – feito em casa. A partir de cinzas, gordura e soda cáustica.  Era um sabão preto, que quando passava num arranhão da pele ardia muito. Passava ele na roupa, no primeiro momento ficava preto, mas limpava a roupa que era uma beleza,  minhas tias lavavam roupa na beira do rio. Punham para "quarar" nas pedras e iam jogando água – não podia deixar queimar. Ficavam lindas. Ainda hoje, tiro encardido de roupa branca colocando no sol. Fica clarinha. Roupa passada à ferro de carvão. Enorme e pesado.
      As casas eram feitas de barro. Fincavam as madeiras no chão, amarravam com cipós os bambus ou taquaras na horizontal e aplicavam o barro. Por isto são conhecidas em alguns lugares do Brasil como casa de "sopapos" (nunca ouvi esta definição em Minas - lá é "casa de barro"). São cobertas de um tipo de capim - o sapê.
Muito percevejo, Mas acho que os humanos tinham imunidades.
     Este tipo de casa, no entanto podia ser melhorado, e era.
    Aí entra o “barro branco”, muito abundante na época, e que a Klabim explorou até que nada mais restou, além de buracos. É a matéria prima da porcelana. Íamos às minas, tirávamos o barro, fazíamos bolas e púnhamos para secar ao sol. Cansei de ir com minhas tias e primas buscar barro. Após secas as bolas eram guardadas. Ele molhado servia para fazer o acabamento das paredes. Por isto as casas muito antigas lá são brancas. Conservar era fácil. Punha-se uma pelota na água, ela se desfazia, e era passado com um pano... nas paredes, no chão, no fogão, e tudo ficava branquinho. O chão era “decorado”, pegavam “bosta de boi” – verdinha, amassavam, faziam um quadrado com ela molhada no aposento. Em volta, uma barra de cerca de 0,50 cm de barro branco. E a sala estava linda para receber as visitas, e a cozinha para ser usada.

Choque de realidade


      Não era a maravilha que meu pai imaginara.
     Agora era preciso comprar de tudo. Não havia espaço para um simples pé de cebolinha. Não era a favela como é hoje, mais 50% dos trabalhadores da GE foram para lá.
Era encostado à fabrica. Transporte só havia o bonde, e as pessoas morando ali não precisavam pagar passagem. (chato ... não havia vale transporte!)
As coisas foram se complicando. Minha mãe lavava roupa para fora, havia uma bica em um local denominado Cruzeiro, onde as lavadeiras se reuniam para utilizar a água do único lugar onde havia torneiras.  Pegava o bonde e ia entregar as trouxas de roupa. (hoje as pessoas têm vergonha de carregar uma sacola). Eram enormes amarradas em um lençol. Minhas tias passavam o dia sentadas bordando. Ás vezes pegavam enxovais inteiros e iam bordar nas casas das famílias.
      Quando a minha mãe saia para fazer as suas entregas, quem ficava tomando conta da casa e da Neusa? Eu claro. Com 8 anos, parecia um palitinho, pegando aquela coisa gordota no colo... quantas vezes pensei em afogá-la em uma tina d’água. Acho que só não fiz, pois falei para a vizinha que, fofoqueira, contou para minha mãe. Apanhei tanto que desisti da idéia.
      Havia um fogareiro de carvão, onde cozinhavámos e uma das minhas obrigações era mantê-lo aceso embaixo da panela de feijão até minha mãe voltar. O chão era de terra precisava borrifar água para varrer sem levantar poeira.
A Neusa inaugurou a ninhada de coelhinhos, digo, criancinhas.

      Algumas coisas que recordo, além claro, do bebê chorão: freqüentei duas escolas, aos trancos e barrancos.Não tinha quase nada. Nem sapatos. Era simplesmente humilhante.
Uma, no bairro Maria da Graça, só me lembro que andava quase quatro km, junto ao muro da GE. Atravessava um local de mato – muito esquisito, mas nunca tive medo. Dele me lembro do óleo de rícino, obrigatório, com uma laranja depois para tirar o mau gosto. Argh....E também de ter comprado uma cocada estragada, que me fez  até hoje, não suportar coco. A cada vez que sinto o cheiro... me lembro.  A segunda escola, no bairro Jacaré. Também distante.
      Dela me lembro da Diretora/professora  Dona Rosina. Ela improvisou a escola em uma casa com algumas salas onde dava aulas até a 4a. série. Duas coisas nunca esqueci: Uma briga com outra menina – briga feia.
Eu “apenas” disse a ela que ia pegar uma barra de ferro na minha casa e ia matá-la. Foi como com a Neusa – Com uma boa surra desisti dos dois assassinatos. Rss.
E a segunda – foi benéfica. Nos juntávamos íamos para a porta da D.Rosina e ficávamos berrando no portão. Um dia ela saiu muito brava e  perguntou se queríamos que ela saísse do banho, nua, para nos atender. Aprendi a não insistir ao chamar pessoas. Se não atendem da segunda vez talvez seja porque não estão podendo.

Não sei se tinha luz elétrica, acho que não. Água eu sei que era muito difícil. O sítio nos dava lenha, agora éramos obrigados a comprar carvão para cozinhar.

Em 1947, ela grávida de 6 meses deu uma briga homérica com o meu pai, passou a mão nas duas filhas e fomos passar uns tempos na casa da minha avó, que enviuvara recentemente.

Este passeio merece um post só para ele.

 Fim de festa

 E começa o pesadelo.

      Após a guerra, o Brasil inicia um furioso surto de industrialização. A mão de obra disponível era pouca, e havia necessidade de operários. Meu pai soube da notícia e ficou entusiasmado. A esta altura já moravam conosco duas irmãs dele, Uma ainda vive. Uma nascida em 1910 - faleceu em 2012 - e a outra em 1920. Bordadeiras com mãos de fada. Mulheres muito trabalhadoras, também voltarei a falar sobre elas... são minhas doces tiazinhas.

      Meu pai começou a matutar: havia saído de Minas, mas a sua vida não se alterara. Trabalhava na terra do mesmo jeito, plantando hoje para comer amanhã.
Não foi para isto que ele havia feito tanto sacrifício.
      Providenciou seu primeiro documento – a Carteira Profissional. E orgulhoso conseguiu uma vaga na General Elétrica, à época uma das maiores fábricas no Brasil.
        E lógico, precisamos deixar o sítio.
      Para quem não conhece, a GE  fabricava lâmpadas, acessórios para iluminação. medidores e transformadores,  ficava em Vieira Fazenda com uma de suas portas dando para Maria da Graça.
Enorme. A fábrica foi desativada na primeira década do século XX!  A entrada de Vieira Fazenda, também é uma das entradas da Favela do Jacarezinho, onde “simplesmente” meu pai me levou para morar.
Vejam o choque. De uma casa verde de madeira, em plena Floresta da Tijuca, em um sítio pertencente a uma das famílias mais nobres da época, de propriedade do
Professor de medicina Dr. Álvaro Osório de Almeida, um dos homens mais importantes do país - talvez só agora eu tenha a real consciência da importância daquele velhinho tão bondoso – o nosso “Vovô Paciente”, como o chamávamos, seus netos e eu, saio daquele pedaço de paraíso e vou para uma barraco de taipa, minha mãe tendo que improvisar janelas com lençóis! Eu ainda não tinha 8 anos, e o meu mundo desabava.

Nada está tão ruim que não possa piorar... e piorou!


 

Meu mundinho encantado

      Vou agora tentar contextualizar o Brasil da época.

     Eu vi o zepelim. Uma vez, única,  sobre o mar na Barra da Tijuca, lembro do meu pai me gritando e me mostrando; nem prestei muita atenção, mais me lembro.

    Não tinha idade para entender, as notícias chegavam já muito diluídas no sítio. Sabia apenas que as pessoas tinham muito medo, que o pão, chamado “pão preto”, era racionado. Havia cupons e cada família só recebia para dois pães. Também não sei quando e como era feita a distribuição. Isto não nos afetava. Minha mãe fazia comida mineira, de muito boa qualidade, e o trigo em Minas também era difícil. Portanto comíamos pela manhã, broa de milho, biscoitos de polvilho que ela fazia, aipim e inhame cozidos com enormes canecas de café com leite.

     O sítio dava quase tudo que precisávamos. Era como em Minas, a única coisa que comprávamos era sal e querozene para iluminação. Minha mãe em qualquer lugar que chegava, tinha como primeiro trabalho plantar uma horta, portanto nada nos faltava.

      Após esta digressão, necessária para que a sequência fique a mais exata possível, volto ao Sítio que foi meu reino por três anos. Reinado este só interrompido durante as férias de fim de ano, quando a família dos donos subia para passar as férias.
      Mas esta interrupção não me causava mágoas. Eram pessoas de alta sociedade, muito famosas, e como todos os que na realidade são bem nascidos, nunca fizeram a menor diferença entre mim e seus netos - Otávio e Maria Tereza. Havia ainda uma menininha, cujo nome se apagou totalmente da minha lembraça.
E passávamos o dia a brincar e correr. Eles moravam em um palacete em Copacabana, as crianças não conheciam a vida na terra, tudo para eles era novidade. Várias vezes fui com eles até o casarão mas como eram idas rápidas só me lembro vagamente de imensas escadarias.
        A casa, muito branca, enorme com um gramado muito bem cuidado, era nosso mundo.
Outra curiosidade, me lembro do avô - Dr. Álvaro e das crianças, seus netos, mais não me lembro da avó (D.Julieta)  e dos pais deles. Sei nomes por ouvir de meu pai, mas lembranças não tenho.
Talvez porque o avô fosse uma pessoa doce, e as crianças meus companheiros de farra.
Logo recomeçavam as aulas, como o avô era professor e as crianças estudavam, eles partiam no barulhento automóvel à gasogênio, e a calma voltava a reinar.



      E assim transcorreu 1944, 1945 veio com mudança total.

      Três notícias – Duas ruins e uma boa. A boa no meio.

     Em março, mais exatamente no dia que completava meus sete aninhos, a vida me sorrindo, nasce um bebê gordo (4,2 gr) e choraminguento. A família me diz que o papai do céu tinha me mandado uma boneca de aniversário... Ira

     Olhem a falta de sensibilidade. Alguém aparece do nada, crianças naquela época apareciam nos pés de repolho..., para dividir o que era só meu, e pensaram que eu ia ficar maravilhada... Nascia a Neusa... sobre ela ainda vou falar muito.
Em junho acaba a guerra. A notícia boa.

 

Minha mãe teve dois filhos homens. Um nasceu em 1940, recebeu o nome de Jaci e morreu com 19 dias de nascido, e o segundo - Celso - em 1944. Morreu com um ano de idade de desinteria infecciosa. Não lhe faltaram médicos pois uma senhora de um sítio perto - D.Zélia - era professora de medicina e fez tudo que pode mas a doença em uma criança tão nova levou a melhor.


E eu voltei a ser filha única. Muito magrinha, os cabelos muito compridos que minha mãe arrumava em duas trancinhas.
Eu era a gracinha, o dengo do meu pai, inteligente, fazer o que? Era mesmo!
Aprendi a ler com meu pai que lia mal. Aprendi a ler no Jornal do Brasil.
Perguntava para o meu pai: Que letra é esta?
- Ele respondia.
E eu: e esta?
Quando ele respondia eu ia além: esta com esta faz o que?
Resumo da ópera: aos 6 anos lia e nunca mais parei. Tenho a impressão que meu pai aproveitava tanto quanto eu das nossas leituras de jornal.
Hoje vejo dizer que a culpa dos filhos não aprenderem é dos pais. Conversa. Minha mãe era totalmente analfabeta. E nós, eu e minhas irmãs adorávamos estudar.
Meu pai só concluiu a quarta série muitos anos depois. E isto não o impediu de ser o meu alfabetizador!
Esta parte da minha infância foi linda. Sozinha. Ninguém para atrapalhar a minha doce vidinha. Só eu mesma, aprontando todas, mas nada que umas varadas da minha mãe não resolvessem

Vivi de 1943 a 1945 - naquele canto de céu. Fui aceita na escola ali perto, como ouvinte, não tinha idade para frequentar as aulas. Só após os 7 anos completos, e eu não os completara. Mas como eu sabia ler - de verdade - me aceitaram, "como ouvinte". Ai o que eu aprontei! Joguei lata de biscoitos na professora, achava meus coleguinhas que estavam sendo alfabetizados umas antas, se naquela época eu conhecesse o termo, com certeza teria chamado aqueles meninos burros... Adorava a pequena biblioteca - mas o único livro que eu conseguia que me deixassem ler era um meio quadradinho, pequeno, com o Getúlio Vargas na capa. Era sobre a vida dele.
Quizeram me ensinar a bordar - na marra, como se alguém conseguisse fazer isto comigo...
Quizeram me obrigar a comer sopa de legumes, o resultado foi uma lata de biscoitos jogada em cima da professora e uma boa surra jogada pelo meu pai em cima de mim...

Não percam o próximo capítulo....Bem humorado

 

Flash back.

Ao chegarmos ao Rio de Janeiro, minha mãe conseguiu emprego antes do meu pai. Como doméstica. O que me lembro daquela casa é a jarra d’água de vidro, muito clara onde boiavam pedras de gelo que eu olhava fascinada. Interessante – são fiapos guardados no subconsciente. Sei que era uma família espírita e muito bondosa, pois minha mãe contava, que quando ia embora, a senhora mandava que ela arrumasse um prato de comida e levasse para o meu pai.

Mas a jarra de vidro, transparente, com o gelo boiando, eu  vejo como se fosse agora.

Era na Muda da Tijuca – parece que alguma coisa nos empurrava para o Alto da Boa Vista.

Meu pai arranjou o seu primeiro emprego. Em um sítio que cultivava camélias. Me lembro das camélias brancas arranjadas em caixas, era colocada uma camada com a flor para cima, uma camada de papel de seda e outra de flores agora com a flor voltada para baixo. Esse cuidado era necessário, por ser a camélia uma flor muito sensível. Nunca mais vi camélias. tem semelhança com o jasmim, mas não tem aroma.

Recordo-me ainda de uma gruta de pedra com um chuveiro muito grande de onde saía uma água muito gelada e eu adorava tomar banho. Ali ficamos pouco tempo, pois meu pai arranjou emprego melhor.

Ainda em um sítio, mas como caseiro, e não como plantador de camélias...


 

Eu era criança para entender, mas inúmeras vezes ouvi meu pai contar. Este arquivo contém tantas memórias dele e das minhas tias, ainda vivos, que talvez seja mais deles que meu. Apenas serei a intérprete, digamos, a cronista da Família Fraga.
Meu pai, lavrador em cidade pequena de Minas Gerais, siquer sabia que precisava ter documentos, e com esta "colossal" bagagem de conhecimentos, resolveu ir para o Rio de Janeiro. Escolheu tão bem que ali desembarcou no exato dia em que três navios brasileiros foram torpedeados. Comenta-se que o torpedeamento foi feito por nações "amigas", já que o Presidente do Brasil - Getúlio Dornelles Vargas - estava mostrando simpatia pelo Eixo - formado por Itália, Alemanha e Japão. Para cortar o mal pela raiz as nações aliadas teriam mandado torpedear os três navios.

Um pouco da minha história que tentarei entrelaçar com a história do país.

Quase oito décadas de vida. Vida vivida, ora sofrida, ora feliz.
Pelo menos por seis delas, com pleno conhecimento de tudo o que se passava ao meu redor.
Curiosa. Sempre uma avidez de ver aprender e apreender.
Por isto, resolvi fazer um registro em ordem cronológica destas décadas. Deixo as memórias para sobrinhos, filhas e netos.
Mesmo que não sirva para ninguém, será prazeiroso escrevê-lo. Até nisto estou inovando: É o diario do tempo que passou.


Primeiros tempos - verdes anos

Prefiro usar minha memória, e as lembranças de meus pais e tias. E a minha, claro!
Como disse anteriormente, as lembranças mais antigas, alguns flash, remontam à chegada ao Rio de Janeiro, eu e minha mãe. Meu pai havia viajado uns dois meses antes.
Cansara da fome, das doenças, então endêmicas no interior do Brasil, e acreditava encontrar o seu destino em uma cidade grande.
Ele não tinha noção de cidade grande. Nascera e vivera onde o Estado de Minas Gerais, faz divisa com o Espírito Santo e o Rio de Janeiro. Lá existem ainda nas serras, as terras que pertenceram aos meus avós, que haviam perdido quase tudo, com a derrocada do café.
É emocionante chegar lá e ouvir minhas tiazinhas já acima dos 80 anos, apontarem e dizerem:
Aquilo lá era tudo do meu pai, e apontando o outro lado dizem – e lá era do pai da sua mãe.
E chegamos ao Rio, para encontra-lo desempregado, morando num ferro-velho na Rua Uruguai e fazendo pequenos serviços para comer.



Dos quatro aos seis anos - Chegada ao Rio de Janeiro.
Tentarei, na medida do possível, recordar os fatos. Só me lembro que foi em agosto de 1942.
O Brasil acabava de entrar na 2a. Guerra Mundial.


 

Faz de conta que começo a contar uma história: Minha história.

Todo o começo é um aprendizado, e os erros ajudam a corrigir os caminhos.
Eu de corpo inteiro:
Maria Aparecida Fraga Ferreira -
75 anos
Minhas naturalidades? muitas:
Mineira - Espera Feliz (nascimento)
Carioca - Vivi no RJ a maior parte da minha longa vida - lugar ex-adorável. Atualmente a tragédia viva.
Hoje Campo Grandense - não do Mato Grosso como querem os desinformados, mas da linda Campo Grande - Mato Grosso do Sul.
Por opção - aqui vivi os melhores anos da minha vida. Aqui encontrei a paz
necessária - a tranquilidade e o equilíbrio tanto psicológico quanto financeiro.
Por tudo isto, sou Pantaneira por opção. Embora lamentando a falta do mar - não posso ter tudo o quero, mas quero tudo o que posso - declaro meu amor e a minha gratidão a este Estado onde ao final encontrei a PAZ.

Prometi voltar e estou voltando! Apenas estou pensando qual o novo caminho, em que estrada vou andar e penso já ter tomado a decisão? Vou contar "causos"! Muitos, todos verdadeiros! E que tal começar pela infância? Vamos em frente.


Tento voltar mais uma vez. Agora sem me preocupar com política - sou apenas um ínfimo grão de areia e nada posso fazer para modificar as coisas. O que tiver de ser será - está nas mãos de Deus. Vou falar sobre mim, sobre minha família, minhas lembranças ... enfim falar de coisas boas.

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